lembrando que nem todo título clichê precede um texto ruim...

Ele entrou na estação Recife às 17h35, aproximadamente. Admirou os trens à vapor que ficam expostos na entrada. Fez-se puro encanto, e se deixou por lá ficar, admirando – e admirado - por mais 15 minutos.

Nesta sexta feira o tempo pouco lhe importava.

Forçadamente detalhista, pôs-se a reparar cada resquício de imagem que lhe rodeava. Afogou-se num mar de sensibilidade. Ele passou a achar bonito até mesmo o verde amarronzado (ou marrom esverdeado) que coloria com um ar de melancolia os azulejos da parede da escada.

Parou para comprar uma rosa. Ela estava murcha. Ele desistiu.

Continuou observando os vários mosaicos estrangeiros com os quais parecia estar-se deparando pela primeira vez. Devolveu um livro qualquer à pequena biblioteca e seguiu em passos calmos.

Subiu as escadarias com cara de pouca disposição. Carregava a pasta na mão esquerda, e na direita, acumulava sujeiras do corrimão.

Entrou no metrô. Sentou-se num lugar qualquer. E esteve tranqüilo durante toda a viagem, desejando apenas que seu destino não chegasse.

Em casa, uma jovem mulher e uma criança. Ela, a mulher, era responsável e fazia vozes de pouca importância. ‘Hoje comeremos macarronada nem que você faça chover canivetes’, enquanto ele concordava, indiferente. No entanto ela, a criança, era doce. Carinhosa e tímida, ria-se das bobagens que imaginava – como o pai no prédio mais alto preocupando-se em fazer chover canivetes.

Naquele dia, excepcionalmente, elas o estavam esperando.

Ele, enquanto aguardava o término de sua viagem metroviária, manteve-se concentrado à um pequeno feixe solar bastante luminoso que fora projetado no interior do vagão por uma abertura mínima existente entres as ferragens.

Um bipe seguido de uma voz feminina qualquer anunciara o término da viagem. Ele esperou que as portas abrissem e desceu numa nova-velha estação, desta vez, indiferente, porém.

Ela - a mulher - preparava a macarronada lembrando-se de um dia em que ele a comprou uma rosa. Não era tão bonita, estava murcha, mas foi um presente sincero. Presente este que quando recebido fora negado: “Uma rosa murcha? É isso que eu sou para você? É assim que você tenta lembrar de mim?”.

Negado pela boca, de fato, mas aprovado por todo o resto. O único detalhe que impediu aquela pobre mulher de jogar-se nos braços dele e beijá-lo por agradecimento ao gesto fora o orgulho.

Ele continuava andando, indiferente. Seguia o caminho já decorado sem falsa sensibilidade e deixara para trás, finalmente, aquela ambição idiota de ser detalhista.

A rosa daquele dia não estava murcha.

Ela - a criança - esparramada confortavelmente na sala de casa aproveitava o tempo de espera para desenvolver algumas de suas habilidades infantis mutuamente: assistia tv sem atenção, comia biscoitos recheados e rabiscava desenhos coloridos em folhas e mais folhas de papel A4 e quanto mais e mais folhas ela utilizasse, melhor. Era assim desde aquele outro dia, quando ela descobrira que as embalagens de papel A4, quando desmontadas, transformam seus versos em folhas ainda maiores e mais legais para o desenho.

Mas a rosa da estação recife não estava murcha.

E ele continuou a caminhar, imerso numa escura monotonia. A possibilidade de comprar aquela nova rosa é que fizera outrora, este dia tornar-se especial. Mas a rosa estava murcha, pra ele, ela sempre estaria murcha.

A macarronada estava quase pronta, e ela – a mulher – preparava a mesa com descaso. Olhava para o lado exercendo seu papel materno, era um amor nutrido por uma preocupação que na maioria das vezes se fazia de insignificante. E quando ela – a criança – finalmente percebia que havia se transformado alvo de observações maternas, corria saltitante com uns desenhos na mão e um biscoito na outra.

Enquanto ele entrava no elevador algum vizinho comentava que não haveriam mais laranjas frescas até o fim do ano. “E rosas?” ele pensou.

Alguns minutos se passaram sem que ele fosse totalmente emergido até sétimo andar. Eis que enfim, aconteceu. A porta do elevador se abrira e ele dava um passo à frente, num mesmo patamar.

Consultou o relógio, 18h25, quase. A mesma mão do relógio pôs-se ao bolso à procura da chave.

Elas – a mulher e a criança – estavam a alguns metros dali. Ela – a criança – mostrava com entusiasmo vários desenhos que ela – a mulher – preocupada demais com a toalha da mesa, talvez, fingia não ver. Era um amor nutrido por uma admiração que muitas vezes se fazia de insignificante.

De súbito, a porta fora aberta. Ela – a menina – soltou o biscoito de uma das mãos e deu de ombros para a mãe correndo para os braços do pai e levando consigo as inúmeras folhas de A4. Ele abriu os braços, colocou a menina em seu colo, e, sem fechar a porta disse umas palavras soltas à respeito dos desenhos. Terminou a ultima frase com “... agora vá lavar as mãos por que eu estou com fome.” E ela – a menina – respondeu orgulhosa de seu futuro comentário: “Sim, papai... e ainda bem que tu não fizeste chover canivetes... a macarronada está com cara de deliciosa!” e saltitou em direção ao banheiro.

Era um amor nutrido pela esperança da chegada, pela surpresa dos olhares saudosos.

Ela – a mulher – deixou a mesa de lado e foi na direção dele enquanto ele fechava a porta. Ela disse: “É sexta-feira... você demorou!” e ele respondeu inconseqüente: “É que eu queria te trazer uma rosa, mas estava murcha.”

Era um amor nutrido por admiração.

Aquela rosa não estava murcha.

Mas jamais ele encontraria no mundo, uma rosa que, para ele, fosse tão bela quanto ela.

E na verdade ele nunca havia encontrado. A rosa murcha, que presenteou sem ser aceita, foi uma maneira de dizer que ele se lembrava dela e não era pela beleza aparente, mas pela beleza essencial.

Era o amor, nutrido pela essência.

A que foi dada de presente, estava murcha, é verdade. Mas era uma rosa.

Uma rosa, é sempre rosa, sempre bela.

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