Sua casa não era lá grande coisa . Era... sua casa (na verdade nem era sua). Havia um quarto no fim do corredor que era dele (será que era, de fato?). Dentro dele: uma cama, duas poltronas, uma pilha de LP's e sua janela - pequena, mas janela.

A janela era como um buraco entre os dentes e de vez em quando ele ia até a beira para observar o que era além do seu. À beira da praia, ele também ia, ás vezes. Algumas vezes. Muitas vezes. Mas só ia quando tinha sol. Tinha medo da chuva. Na verdade, o problema não era a chuva. E que as chuvas fazem poças, e as poças? reflexos. Sim, na sua casa havia um espelho (que era até um pouco embaçado) mas não era como ver sua cara num pouco de lama.

Ele também tinha um escola. Não era dele, mas ele tinha que estar lá todos os dias, como se fosse. Lá não haviam poças, mas haviam janelas, muitas. E alguns amigos, que também não eram dele. Era longe. Longe de casa, longe da praia. Quando ele ia pra lá, levava alguns de seus livros - que antes foram de outras pessoas. Ele ia andando. Cansava. Afinal, os passos eram dele.
Chegando lá ouvia vozes que não queria ouvir. Dava mais alguns de seus passos, que dessa vez não eram tão cansativos. E vez por outra lembrava de olhar alguma das janelas que estavam sempre fechadas.

Ele não gostava, de fato. Mas tinha que ir, todo dia. Não para ouvir vozes, nem para dar passos ou olhar janelas fechadas. Na verdade, se não quisesse ele não iria. Mas ele queria. Um querer que talvez nem fosse - ou não pudesse ser - dele. Ele ia, sempre ia. Porque lá, havia algo que era dele, de verdade E ele ia busca-lo. Mas antes tinha que encontrar. Encontrar alguma coisa que fosse sua, só sua. Que fosse sua, sem antes ter sido de mais ninguém. Que cansasse menos que os seus passos. Que fosse como aquele quarto - mas sem a duvida, se era dele de verdade.

No lugar onde ele procuravam haviam muitas janelas (eu já disse isso), e talvez até algumas poltronas mas não havia a cama nem os LP's - dois quais a metade ele sabia de cor. E antes que eu esqueça, permita-me citar outra coisa que ele não tinha: a certeza de que iria encontrar aquilo que lhe pertencia, e ele sabia: se tivesse de encontrar era lá, naquele lugar.

Os seus dias - que não eram seus - ficavam mais longos. Os seus passos, mais cansativos. As janelas, cada vez mais fechadas. E ele começou a não querer mais procurar - ou não querer mais encontrar. E encontrou.

No fim de seu não-seu corredor preferido ele a viu. Ela era seu "segundo quarto". Ela tinha em si a cama, as poltronas, a pilha de LP's, e a janela (havia um pequeno espaço entre dois de seus dentes). Ele a encontrou. Ele finalmente a encontrou. Mas não queria chama-la de "segundo quarto" pois descobrira que o que era seu nela, era muito mais do que isso. E enfim entendeu: era dela tudo aquilo que era seu. Ela, ao se virar, fez com que os olhares se encontrassem. E ele sentiu que era dele, tudo aquilo que era dela. O amor. Era só, era tudo o que eles tinham.

Ele então, fez o inevitável: sem hesitar, deu a ela tudo aquilo que era seu. Mesmo com a possibilidade de fugir com aquilo que - pela primeira vez - era seu, por inteiro, de verdade. Ele deu a ela. Em troca, ela lhe deu tudo o que tinha. A cama, as duas poltronas, a pilha de LP's, a janela, e até a beira do mar nos dias do sol.


Não era tudo - nem o maior do mundo - nas era inteiramente dele, e ele inteiramente dela.

1 Comment

  1. Anônimo on 11 de fevereiro de 2008 às 12:00

    ele, o conto, é inteiramente belo.
    inteiramente Marina.
    A sua janela está aberta e entra as idéias mais fechadas que um ser humano pode ter.
    Parabéns por isso!

    Larissa Guedes

     


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